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Conhecer custos ajuda gestores a economizar

11/08/2026

O analista administrativo do TCEMG, Gustavo Paschoalini falou sobre

Quanto custa uma licitação? E uma hora de cirurgia em um hospital público? Quanto um município poderia economizar reduzindo as perdas de água ou revendo contratos e despesas com energia elétrica? As respostas passam por despesas que nem sempre aparecem quando se olha apenas para o valor pago por um produto ou serviço. Nesta terça-feira, 11/8/2026, segundo dia do IV Seminário Mineiro de Custos no Setor Público, experiências apresentadas no Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) mostraram como conhecer esses custos pode ajudar gestores a tomar decisões, reduzir desperdícios e melhorar os serviços entregues à população. 

Na palestra O conhecimento dos custos dos processos licitatórios como instrumento de economia processual e aperfeiçoamento da tomada de decisão dos municípios, o analista administrativo do TCEMG Gustavo Loureiro Pasqualini chamou a atenção para custos que normalmente ficam escondidos em uma contratação pública. Além do preço pago ao fornecedor, entram nessa conta as horas de trabalho dos servidores, a estrutura administrativa, os sistemas utilizados, o tempo de tramitação e eventuais retrabalhos.
 
Utilizando como referência a remuneração mediana de R$ 3.280 para servidores municipais e considerando apenas uma pessoa envolvida durante a tramitação, Pasqualini estimou que o custo com pessoal em uma contratação simples pode variar de R$ 3.280 a R$ 5 mil. Em uma contratação intermediária, pode ficar entre R$ 6,5 mil e quase R$ 10 mil; e, em processos complexos, que podem levar de três a seis meses, entre R$ 10 mil e quase R$ 20 mil. Os valores não incluem outros custos operacionais.
 
Pasqualini também apresentou uma estimativa, atualizada para 2024 a partir de estudo sobre o tema, segundo a qual o custo médio de um processo licitatório chegaria a quase R$ 30 mil. A conta ajuda a dimensionar o impacto da repetição de processos para aquisições que poderiam ser planejadas conjuntamente.
 
É nesse ponto que entra o Plano de Contratações Anual (PCA). Segundo Pasqualini, o instrumento permite antecipar demandas, reunir aquisições de mesma natureza, obter ganhos de escala, reduzir contratações emergenciais e organizar melhor o trabalho das equipes responsáveis pelas compras. Também possibilita que fornecedores conheçam previamente as necessidades da administração e se preparem para participar das disputas.
 
“Planejar custa caro, mas não planejar custa muito mais caro”, resumiu. Para ele, a eficiência não começa na escolha do fornecedor. “A eficiência da minha contratação, a eficiência do meu gasto público, começa na qualidade da minha decisão administrativa.”
 
Uma falha no início do processo, explicou, pode provocar um efeito cascata. Uma especificação inadequada da demanda pode comprometer o estudo técnico preliminar, a pesquisa de preços e o edital, gerar impugnações ou até fazer a licitação fracassar. Nesse cenário, o processo precisa retroceder etapas, consumindo novamente tempo e recursos públicos.
 
O planejamento também deve considerar o custo ao longo da utilização do produto ou serviço, e não apenas seu preço inicial. Pasqualini exemplificou que um produto mais caro na aquisição pode representar menor custo para a administração caso tenha rendimento ou vida útil superiores. “A proposta mais vantajosa não é analisada exclusivamente pelo preço inicial”, afirmou.
 
Dos dados às decisões
 
Experiências apresentadas ao longo do dia mostraram como essa lógica pode ser aplicada em diferentes áreas da administração pública.
 
Na Prefeitura de Belo Horizonte, a informação de custos já é utilizada para transformar dados em decisões de gestão. A gestora de custos Adriana Gonçalves apresentou o Centro de Informações de Custos (CIC), que reúne informações provenientes de diferentes sistemas e abastece painéis gerenciais. Para atribuir corretamente despesas como água, energia e telefonia, a equipe chegou a realizar visitas técnicas aos equipamentos públicos do município e mapear hidrômetros, instalações elétricas, ramais e outras informações de infraestrutura.
 
Um dos exemplos apresentados foi o acompanhamento das despesas com energia elétrica. A partir dos dados do CIC, equipes da Prefeitura realizaram estudos de eficiência energética e passaram a analisar fatores como demanda contratada, enquadramento tarifário e cobranças por ultrapassagem de consumo. Segundo Adriana, determinadas modalidades de contratação têm possibilitado descontos de aproximadamente 15% ou mais nas faturas analisadas.
 
Os painéis também chegam às escolas. A Prefeitura acompanha itens de custo associados a cada equipamento e trabalha para calcular o custo por aluno. Outro painel monitora a alimentação escolar, permitindo comparar preços, valores máximos e mínimos e o histórico dos alimentos adquiridos. A ferramenta auxilia, por exemplo, na análise de pedidos de aumento de orçamento. “O trabalho em parceria é fundamental e essencial para que a gente consiga alcançar os objetivos almejados com a informação de custos”, destacou Adriana.
 
Custo na saúde tem o paciente como centro
 
Na Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (Fhemig), que trabalha com apuração de custos desde 2008, as informações são utilizadas para acompanhar serviços, avaliar contratos e apoiar decisões.
 
Durante a palestra Custos para melhorar a qualidade dos serviços na área da saúde: um exemplo de decisão baseada em custos na Fhemig, o coordenador de custos da instituição, Thiago Henrique Batista, mostrou que a análise precisa considerar as diferenças entre hospitais, especialidades e regiões e, antes de orientar uma decisão, passar por procedimentos que assegurem a confiabilidade dos dados.
 
Entre os exemplos apresentados está a Maternidade Odete Valadares. A unidade utilizou um painel de custos em uma oficina com gestores para analisar contratos, formas de cobrança e variações de despesas. O trabalho resultou na redução de 25% no custo de um contrato de kits da maternidade.

Para a Fundação, entretanto, reduzir despesas não pode ser um objetivo isolado. “A melhor gestão de custos não é aquela que economiza mais. É aquela que transforma recursos públicos em mais saúde, mais qualidade e mais valor para o paciente”, afirmou Thiago.
 
Começar pelo possível
 
A experiência da Prefeitura de Uberlândia mostrou que a implantação da gestão de custos não precisa começar com sistemas complexos. As discussões no município tiveram início em 2022, depois que a agência reguladora de saneamento questionou como eram calculadas as tarifas de água e esgoto. Segundo o contador-geral da Prefeitura, Paulo Guido de Novaes, o município percebeu que não apurava efetivamente o custo desses serviços.
 
Em 2023 e 2024, as primeiras extrações foram feitas com planilhas de Excel. Depois vieram ferramentas de Business Intelligence (BI), inclusive com informações disponibilizadas no Portal da Transparência. Atualmente, o município trabalha no desenvolvimento de um módulo de custos integrado e na criação de um comitê municipal dedicado ao tema.
 
Paulo Guido defendeu uma implantação gradual, começando pelo diagnóstico da realidade de cada órgão, pelos custos diretos e por projetos-piloto antes da expansão para toda a estrutura. “A gente não consegue iniciar com o melhor dos mundos. Então, comecem de forma gradativa”, recomendou. Hoje, Uberlândia trabalha com informações de custos de áreas como educação, saúde, resíduos sólidos, água e esgoto e equipamentos públicos, entre eles o Parque do Sabiá.
 
Água perdida também tem custo
 
No saneamento, Marco Antonio Pires e Thatiana Soares, apresentaram a experiência de Guanhães na implantação da gestão de custos no Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE) na cidade
 
O levantamento apresentado apontou perdas de água de 37,03%, com impacto estimado em R$ 2,48 milhões por ano. Segundo os dados mostrados durante a palestra, cada ponto percentual de perda reduzido representa uma economia potencial de R$ 66,9 mil anuais. A mensuração permite transformar um problema operacional em informação financeira para orientar investimentos, combater desperdícios e aumentar a eficiência do serviço.
 
As experiências municipais e estaduais apresentadas durante o segundo dia reforçaram uma das propostas centrais do seminário: fazer com que a informação de custos saia dos relatórios e passe a integrar as decisões cotidianas da administração pública.
 
O evento continua amanhã, 12/08. Acesse a programação! 


Marco Antonio Pires e Thatiana Soares, apresentaram a experiência de Guanhães (Foto: Verônica Manevy)

Thiago Rios Gomes / Coordenadoria de Imprensa