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Entre a lei e a proteção: os oito gargalos no combate à violência contra a mulher em Minas Gerais

12/08/2026

Em Minas Gerais, no ano passado, foram 306 mortes em que as vítimas são mulheres, sendo 177 crimes de feminicídios - Ilustração: geração com uso da IA

É tarde de terça-feira, semana de inverno na capital mineira. Mas os termômetros desmentem a estação do ano. Um coletivo urbano se aproxima do ponto de embarque, as portas se abrem, pessoas embarcam. O veículo se coloca em movimento. No lado de dentro, vozes em burburinho. De pé, próxima ao motorista, uma mulher, com traços físicos que sugerem uma vida marcada pelo trabalho duro. Ela conversa com um homem e uma mulher, mais jovens, assentados na primeira fileira das cadeiras. De repente palavras ditas por ela chamam a atenção: “medida protetiva”. O homem se dirige à mulher de pé: “se ele se aproximar, liga para a polícia!”

O relato não é fictício. É uma cena verídica como também é real a violência contra as mulheres. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública indica que, em 2025 houve, no Brasil, 3.539 homicídios em que as vítimas são mulheres, incluindo os feminicídios, quando o assassinato é motivado estritamente pelo fato da vítima ser mulher. Isso ocorre em contextos de violência doméstica e familiar ou de menosprezo, ódio e discriminação. No Brasil, em 2025, foram registradas 1.571 ocorrências de feminicídio.

Em Minas Gerais, no ano passado, foram 306 mortes em que as vítimas são mulheres, sendo 177 crimes de feminicídios, também de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Comparativamente, o percentual de feminicídios em Minas Gerais é superior ao nacional. No estado, 57,8% dos crimes contra as mulheres foram feminicídios no mesmo período; no país, 44,3%.

Outro dado evidenciado pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública é o número de vítimas de feminicídio que, no momento da morte, estavam sob a proteção de uma ordem judicial, o que é denominado Medida Protetiva de Urgência ativa. No Brasil, foram 70 assassinatos de mulheres. O estado com o maior número de ocorrências foi o Paraná, com 13 feminicídios, seguido por Pernambuco, com 11. Quanto a Minas Gerais, a informação não está disponível.

Oito gargalos

Neste mês de agosto, quando são realizadas ações dentro do contexto do Agosto Lilás, instituído como movimento oficial e nacional de conscientização voltado a divulgar a Lei Maria da Penha e intensificar o combate à violência contra a mulher, os Tribunais de Contas brasileiros participaram de uma mobilização, na sede do TCE-RJ, do Seminário Nacional de Controle Externo voltado ao Enfrentamento da Violência contra a Mulher.

Durante o evento, realizado nos dias 10 e 11 de agosto, oito gargalos foram identificados pelo Controle Externo brasileiro que revelam falhas no combate à violência contra a mulher. Eles vão da ausência de leis à execução prática de políticas públicas. O diagnóstico inédito foi produzido a partir de evidências coletadas até julho deste ano em 99 documentos técnicos, 46 auditorias, 15 levantamentos, 26 decisões colegiadas e o mapeamento de 201 práticas territoriais.

Apesar dos avanços na legislação, a proteção às mulheres no Brasil enfrenta entraves operacionais provocados pela desarticulação do próprio Estado. Essa falta de governança e de integração sistêmica atrasa a aplicação de medidas protetivas e gera a revitimização das mulheres, que precisam repetir seus relatos a cada novo balcão institucional por onde são obrigadas a passar.

Essa fragmentação administrativa é acompanhada por restrições orçamentárias e pela escassez de recursos humanos. O relatório indica que as verbas previstas no orçamento frequentemente não são integralmente liberadas pelo poder público, o que inviabiliza o funcionamento de serviços essenciais por 24 horas. Além disso, a falta de profissionais em quantidade suficiente e sem treinamento específico em perspectiva de gênero compromete a qualidade e a eficiência do atendimento inicial. O Estado ainda apresenta lacunas na prevenção e no acolhimento contínuo, concentrando delegacias nas capitais e reduzindo o acesso no interior.

Ao registrar baixos investimentos em programas de autonomia financeira, o poder público dificulta que as vítimas deixem o convívio com os agressores por dependência econômica. Sem fluxos padronizados de acompanhamento após o primeiro socorro e sem mecanismos para avaliar o impacto das ações, a gestão pública tem dificuldades para mensurar a eficácia dos gastos e reverter os índices de criminalidade.

Violência contra a mulher aparece nas conversas cotidianas e públicas em Belo Horizonte - Foto: Marcílio Lana/TCEMG

Nas Geraes

A fiscalização do TCEMG, que gerou dados para o diagnóstico nacional, dividiu-se em duas frentes: uma análise macro da estrutura do governo estadual e auditorias operacionais focadas em realidades locais de nove municípios: Barbacena, Iturama, Juiz de Fora, Patos de Minas, Araxá, Sabará, Ponte Nova, Frutal e Antônio Carlos. A escolha das nove cidades não foi aleatória, mas observou os pontos de maior vulnerabilidade, além de buscar um panorama das diferentes realidades de Minas Gerais.

Os relatórios revelaram um padrão de desestruturação institucional caracterizado por conselhos municipais inoperantes e pela existência de fundos de proteção que constavam na legislação, mas registravam saldo zero ou dotação nula na Lei Orçamentária Anual (LOA).

Em municípios de médio porte como Frutal, Araxá, Sabará e Ponte Nova, as auditorias constataram que a transferência de vítimas entre assistência social, polícia e saúde ocorria de forma informal, dependendo de contatos pessoais de servidores por aplicativos de mensagens, sem fluxos padronizados ou prontuários unificados. Em Barbacena, a auditoria identificou um Conselho da Mulher inoperante, falta de acolhimento especializado e ausência de abrigo para vítimas sob risco de morte. Esse cenário forçava as mulheres a buscarem auxílio em repartições comuns da Prefeitura e deixava as vítimas em situação de rua sem assistência pública.

Nos municípios menores, a precariedade dos serviços sociais agravava o isolamento territorial. Em Antônio Carlos, a auditoria apontou deficiências na execução da política de assistência social e carência de equipes multidisciplinares, enquanto em Patos de Minas o problema central foi a fragmentação de dados entre os órgãos de atendimento, o que impedia o acompanhamento do histórico de risco da vítima. Em Iturama, constatou-se que a falta de normatização e estruturação do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) reduzia drasticamente o potencial de suporte psicossocial.

Já no maior polo populacional da amostra, Juiz de Fora, o principal obstáculo identificado foi o estrangulamento da rede especializada, gerando uma fila de espera que provocava a desistência de mulheres antes mesmo de receberem o acolhimento inicial.

Avanços

Duas das nove cidades foram alvo de novas visitas do Tribunal – Barbacena e Iturama. O monitoramento nas duas localidades, a segunda fase da auditoria, aconteceu porque esses municípios conseguiram reestruturar suas redes de acolhimento e reativar canais de participação social. As duas localidades lideraram as transformações locais após cumprirem, respectivamente, 94% e 69% das metas fixadas pelo órgão de controle externo mineiro.

Barbacena superou a falta de acolhimento especializado e a ausência de abrigos de emergência inaugurando a Casa da Mulher com equipe própria, restabelecendo o Conselho Municipal, viabilizando vagas de acolhimento sigiloso e implementando uma pesquisa regular de satisfação com as usuárias. Já Iturama estruturou o atendimento de seu Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) com a contratação de uma advogada especializada, promoveu capacitações técnicas continuadas, regularizou o conselho local e adquiriu um veículo exclusivo para garantir o transporte seguro de vítimas residentes em áreas rurais e periféricas.

Os outros sete municípios auditados — Juiz de Fora, Patos de Minas, Araxá, Sabará, Ponte Nova, Frutal e Antônio Carlos — receberam prazos diferenciados para proceder a adequação orçamentária a partir das recomendações emitidas pelo TCEMG.