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Fábio de Melo lança novo livro no TCEMG e emociona público em auditório lotado

16/09/2026

Momento em que Padre Fábio de Melo cantarola a pedido da plateia. - Foto (crédito): Veronica Manevy/TCEMG

O escritor, cantor, comunicador e sacerdote Fábio de Melo lançou, na noite dessa terça-feira (15/9), seu mais novo livro, “A Terra que Ninguém Nos Prometeu”, no Auditório Vivaldi Moreira, do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG). O evento, realizado em parceria com o projeto Sempre um Papo, lotou o auditório. Diante da grande procura, o público também acompanhou a conversa por meio de um telão instalado no Espaço Mestre Piranga, onde diversas pessoas puderam assistir à programação e participar da sessão de autógrafos realizada após o bate-papo.

Natural de Formiga (MG), Fábio de Melo apresentou ao público sua mais recente obra, composta por 26 contos, resultado de observação e de escuta, que é parte de seu ofício de sacerdócio e de escritor. O livro aborda temas como ausências, perdas, luto e recomeços. O bate-papo foi conduzido pelo jornalista e escritor Afonso Borges, fundador do Sempre um Papo.

Ao dar as boas-vindas ao público e ao autor, o presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo, ressaltou o papel da cultura na construção da cidadania e destacou a importância do Tribunal se consolidar como um espaço de diálogo com a sociedade.

“Queremos que o Tribunal de Contas seja a casa dos mineiros e das mineiras, a casa da cidadania, um tribunal dos direitos humanos”, afirmou. Segundo ele, receber Fábio de Melo em mais uma edição do Sempre um Papo representa uma oportunidade de reafirmar o compromisso institucional com a cultura e com a valorização da sensibilidade humana.

Para Durval Ângelo, a obra lançada no TCEMG convida os leitores a percorrer “territórios íntimos, feitos de ausências, afetos interrompidos, lembranças e marcas que o tempo não consegue apagar”, conduzindo-os às experiências mais delicadas da existência.

Literatura construída a partir da vida

Durante a conversa, Fábio de Melo afirmou que seu escrito nasce da experiência humana, do olhar atento para a realidade. Apaixonado pela literatura, revelou que aproveita todas as oportunidades para escrever e transformar em narrativa aquilo que observa, sente e escuta ao seu redor.

Durante a conversa, explicou que a sua literatura “não é nada mais que um desnudamento no meu eu lírico, em que utilizo personalidades e pessoas que encontro na vida e que entraram no meu imaginário”. Falou que o livro nasceu de muitos desencantos: “o verdadeiro encantamento só é possível depois que nos desencantamos inúmeras vezes, da mesma forma que posso saber que amo, depois que já precisei perdoar, me decepcionar muitas vezes … vivo hoje a experiência do desencanto com muita tranquilidade.”

Acrescentou que esses contos tangenciam o que sabe de si, mas também do que lhe foi entregue pelas pessoas. Explicou à Borges que a construção de seus personagens lhe é um grande desafio, pois é necessário juntar o conhecimento que possui do mistério da alma humana, encontrando respostas com outra pergunta.

“A Terra que Ninguém Nos Prometeu” nasceu da revisitação de "Orfandades", livro publicado em 2012. “O livro é resultado de muita observação, dos desconsolos, dos desamparos e das muitas dimensões da vida humana. É também uma oportunidade de falar sobre dores que, muitas vezes, precisamos confessar, mas para as quais nem sempre encontramos coragem”, afirmou.

Ao longo do bate-papo, o escritor destacou que experiências pessoais contribuíram significativamente para a construção da obra. Entre elas, a vivência do luto pela morte de sua mãe. Segundo ele, a experiência trouxe reflexões profundas sobre a vulnerabilidade humana e a necessidade de acolher a tristeza como parte da existência.

“Não consigo entender o mundo sem o olhar de minha mãe”, disse emocionado, definindo-a como uma referência afetiva permanente, ligada à memória de “um tempo bom que deixou de existir”.

Os bastidores da humanidade

Fábio de Melo também refletiu sobre a influência de sua missão sacerdotal no processo criativo. Para ele, o exercício diário da escuta o coloca em contato com aspectos profundos da condição humana. “O meu ofício ajuda muito no trabalho de escrever. Tenho a oportunidade de conhecer os bastidores da humanidade”, afirmou.

Segundo o sacerdote, as pessoas frequentemente compartilham diante dele suas dores, angústias, tragédias e esperanças. “Geralmente, as pessoas se desnudam espiritualmente diante de mim. Essa experiência enriquece profundamente a escrita”.

O autor explicou que muitas dessas histórias permanecem guardadas em sua memória até encontrarem uma forma literária. “As estórias me atravessam e ficam guardadas”, observou. Apaixonado pelo que chama de “tragédia humana”, Fábio revelou que prefere explorar os conflitos internos dos personagens, privilegiando o fluxo psicológico em vez da sequência cronológica dos acontecimentos.

Entre ausências, desencantos e esperança

Durante o encontro, o autor ressaltou que a nova obra dialoga diretamente com os temas presentes em Orfandades, mas amplia a reflexão sobre as múltiplas formas de ausência que marcam a experiência humana. Para ele, as orfandades não se limitam à perda de pessoas queridas. Podem também representar a falta de sonhos, afetos, certezas ou referências capazes de dar sentido à vida.

Em uma das reflexões mais marcantes da noite, Fábio de Melo afirmou que existe algo que o fascina profundamente na literatura: “o humano precário e a tragédia humana”. Segundo o escritor, sua intenção é levar o leitor a mergulhar emocionalmente na experiência dos personagens, reconhecendo-se em suas dores, fragilidades e tentativas de reconstrução.

Ao comentar o papel da literatura, Fábio de Melo defendeu a escrita como instrumento de reflexão, encontro e transformação. Inspirando-se na imagem da “terceira margem”, eternizada por Guimarães Rosa, ele afirmou que os livros podem criar caminhos onde aparentemente não existem possibilidades. “A literatura propõe ser a ponte, a terceira margem”, invisível, mas possível.

Para o autor, esse caminho literário pode favorecer processos de autoconhecimento, libertação e cura, permitindo que o leitor encontre novos significados para suas próprias experiências.

Um contista com voz própria

Ao final da conversa, Afonso Borges destacou a consolidação da trajetória literária de Fábio de Melo. “Fábio já tem o seu próprio estilo. É um contista e mineiro, afirmou o mediador. Em resposta, o escritor agradeceu o incentivo recebido ao longo dos anos por parte do amigo e destacou a importância do Sempre um Papo para sua caminhada como autor.

A noite terminou sob aplausos do público e uma concorrida sessão de autógrafos, confirmando o sucesso de mais uma edição do projeto cultural realizado pelo TCEMG. Em um encontro marcado pela emoção, pelas histórias e pela reflexão sobre a condição humana, “A Terra que Ninguém Nos Prometeu” encontrou seus primeiros leitores em uma casa cheia, unida pelo interesse comum na literatura e em sua capacidade de transformar dor em significado e ausência em possibilidade de recomeço.

O projeto Sempre Um Papo é uma parceria da Fundação Sempre Um Papo, TCE Cultural, Copasa, Itaú e Ministério da Cultura.

Veja aqui as fotos de Padre Fábio de Melo, por Verônica Maneyy/TCEMG

Sempre Um Papo com Fábio de Melo - TCE Cultural