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Para onde vai o seu dinheiro? Seminário destaca gestão de custos e transparência como pilares da boa governança

12/08/2026

Palestra da professora de contabilidade, Lucy Freitas - Foto: Veronica Manevy/TCEMG

"A confiança da sociedade é a base para o funcionamento de qualquer instituição democrática. Por isso, o Tribunal de Contas precisa agir de forma preventiva, evitando falhas para assegurar que o dinheiro público traga retorno real à população." Com essa diretriz, o presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), conselheiro Durval Ângelo, deu início ao terceiro e último dia do IV Seminário Mineiro de Custos no Setor Público. 

Com o tema “Utilização das Informações de Custos para Melhorar a Vida das Pessoas”, o evento debateu a aplicação transparente e eficiente do orçamento público na prestação de serviços essenciais à população mineira. A proposta do seminário reafirmou que a mensuração precisa dos custos governamentais vai além do cumprimento formal de exigências legais: trata-se de um instrumento estratégico de gestão voltado à transformação social.
 
Serviços de alcance universal, como o Sistema Único de Saúde (SUS), exemplificam como a alocação consciente de recursos gera valor concreto para a coletividade. Da mesma forma, áreas prioritárias — como educação, segurança pública, meio ambiente e infraestrutura — dependem do uso inteligente dessas informações para otimizar os investimentos, aperfeiçoar políticas públicas e elevar continuamente a qualidade de vida da sociedade.
 
Presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
O custo como mensuração de desempenho
A professora Lucy Freitas, coordenadora de pós-graduação dos cursos de Finanças Públicas, Gestão Pública e Contabilidade Pública no IEC PUC Minas e professora da Escola de Contas do TCEMG, alertou para a necessidade de mudar a cultura de prestação de contas na administração pública. "Os gestores enchem a boca para dizer o quanto gastaram, mas não explicam como, com qual qualidade ou com qual finalidade. Isso não atende às exigências de qualidade da informação do gasto público", pontuou.
 
A especialista detalhou a diferença conceitual entre gasto e custo: enquanto o primeiro representa apenas a saída orçamentária, o custo está intrinsecamente atrelado ao desempenho e à geração efetiva de bens e serviços. Em suma, a existência de um custo exige a comprovação de resultados.
 
Embora seja fundamental, a aplicação da gestão de custos no Brasil ainda enfrenta grandes desafios. Entre os principais problemas estão a cultura burocrática, a resistência política a um modelo focado em resultados e a falta de sistemas contábeis eficientes. Na prática, o país sempre deu prioridade ao controle do orçamento em si, deixando em segundo plano a medição da qualidade e do impacto dos serviços prestados à população.
 
Tecnologia e monitoramento
A professora de Administração e Contabilidade Elisangela Santos Fernandes abordou o sistema de custos no setor público sob a perspectiva da mensuração e acumulação para municípios, reforçando a contabilidade por competência como uma obrigação institucional.
 
A especialista compartilhou os resultados de sua pesquisa de mestrado, na qual desenvolveu um aplicativo alimentado por bases de dados contábeis municipais com o propósito de transformar análises técnicas de custos em decisões administrativas concretas.
 
A metodologia se baseia na comparação entre o orçamento previsto e o que foi de fato executado, no acompanhamento de indicadores de eficiência — focados em custo, produtividade e capacidade — e no uso de análises estratégicas para identificar tendências e emitir alertas preventivos aos gestores públicos.
 
Professora de Administração e Contabilidade Elisangela Santos Fernandes - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
Complementando a discussão, o contador e filósofo Vágner Campos de Araujo apresentou a implantação do sistema de custos na Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM). Ele destacou que a apuração deve levar em conta território, unidades, pessoas e atividades, reforçando que o desafio vai além do cálculo numérico: trata-se de dar sentido aos dados, já que uma mesma despesa pode ter interpretações diferentes em uma instituição multiterritorial.
 
O custo de entregar
O professor Amaury José Rezende, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FEARP-USP), provocou o público em sua palestra: "Quando paramos de olhar quanto se gasta e passamos a perguntar quanto custa entregar?". O docente ressaltou que, embora a maioria dos municípios mineiros saiba exatamente o montante aplicado, quase nenhum consegue precisar o custo unitário de uma consulta médica, de uma matrícula escolar ou de uma tonelada de resíduo coletada.
 
Segundo Rezende, tomar decisões sem informação de custos é caminhar no escuro, pois o ciclo orçamentário revela a entrada e a saída de dinheiro, mas não o que foi produzido, para quem e a qual preço. O professor reforçou que o custo unitário é essencial para a comparação, a priorização e a prestação de contas (accountability), atuando como a ponte entre o imposto pago e o serviço recebido, e destacou o Tribunal de Contas como o único ator capaz de padronizar essa comparabilidade.
 
Governança verde
A auditora de controle externo do TCEMG Edalgina Bráulia de Carvalho trouxe reflexões sobre como a alocação correta de recursos pode promover a dignidade humana. A palestrante destacou o conceito de governança verde da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que une diretrizes de gestão pública, ferramentas operacionais e políticas regulatórias para alinhar o crescimento econômico à sustentabilidade ambiental. Em sua abordagem, ressaltou que a contabilidade pública precisa evoluir para incorporar em suas medições a degradação e os impactos ecológicos futuros.
 
Em seguida, aconteceu a mesa de debate "Há (pode haver) conflitos de interesses na implantação do Sistema de Informação de Custos no Setor Público?", mediada pela auditora do TCEMG Regina Lopes de Assis Bernardo. O painel contou com as contribuições dos debatedores Rodrigo Lubiana Zanotti, Roberto Miranda Pimentel Fully, da professora Lucy de Fátima Assis Freitas e do professor Othon Pereira de Mello, promovendo uma discussão aprofundada sobre os desafios operacionais e políticos da implementação do sistema nas instituições públicas.
 
O evento foi oficialmente encerrado pela apresentação artística do coral de Vespasiano.
 
Mesa de debate "Há (pode haver) conflitos de interesses na implantação do Sistema de Informação de Custos no Setor Público?" - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
Coral de Vespasiano - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
Dicionário financeiro: entenda a diferença
 
- Despesa (ótica orçamentária): Etapas de execução do orçamento (empenho, liquidação e pagamento).
- Gasto (ótica financeira): Saída de recursos, independentemente do que foi produzido.
- Custo (ótica do consumo): Recursos efetivamente consumidos para produzir uma unidade de serviço identificada.
- Valor público (ótica do resultado): Efeito concreto e transformação produzida na vida das pessoas.