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Do controle formal à atuação estratégica: auditoria do TCEMG mostra evolução no controle externo

24/08/2026

TCEMG se destaca no 9° Conacon com o projeto Solaris - Foto: Veronica Manevy/TCEMG

"É melhor prevenir do que remediar". Foi com essa premissa que a equipe de auditoria do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) obteve o 1º lugar no painel "Auditoria de Controle Externo que Transforma", durante a 9ª edição do Congresso Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil (Conacon), realizada de 18 a 21 de agosto, em Curitiba/PR.

O projeto “Solaris: auditoria baseada em dados para identificação preventiva de direcionamento em licitações”, desenvolvido pelo TCEMG, foi selecionado entre 25 trabalhos submetidos por órgãos de controle do país. A escolha foi baseada em sua metodologia, no impacto de sua aplicação e no potencial de replicação.
 
Organizado pela Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil (ANTC), o evento reuniu cerca de 700 auditores/as e autoridades sob o tema “Auditoria de Controle Externo que transforma: impacto social e simetria constitucional”.
 
O presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo, parabenizou a equipe e reafirmou o compromisso da gestão com o investimento em ferramentas tecnológicas para a atuação do órgão no estado com o maior número de jurisdicionados do país. Segundo a presidência, as sinalizações emitidas pelas ferramentas de inteligência contam com o respaldo dos conselheiros, resultando na celeridade dos trâmites e no atendimento às demandas da sociedade.
 
“A ação dessa malha de fiscalização tem tido um respaldo muito grande dos conselheiros. Quando sai uma sinalização de vocês apontando uma provável irregularidade, e o gestor ou jurisdicionado não a acolhe, isso se transforma em processos muito mais rápidos aqui”, declarou.
 
Equipe reunida com presidente do TCEMG, Durval Ângelo, para discutir projeto de auditoria - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
Tecnologia e Prevenção no Controle Externo
Desenvolvido por uma equipe multidisciplinar de auditores e auditoras das áreas de Direito e Tecnologia do TCEMG, o projeto Solaris foi iniciado  em 2022 e teve sua metodologia estruturada a partir de 2023, com a criação da então Coordenadoria de Inteligência e Dados do Suricato.
 
A ferramenta automatiza a coleta, a classificação e o processamento de editais de licitação recém-publicados — com foco inicial nas áreas de Tecnologia da Informação e veículos. Com a aplicação de inteligência artificial, o Solaris identifica inconsistências nos procedimentos licitatórios do Estado. Ao detectar indícios de direcionamento, o sistema emite alertas preventivos aos auditores/as para acompanhamento durante o andamento do processo.
 
O monitoramento concomitante permite que os municípios realizem adequações antes da abertura ou conclusão dos certames. O projeto está inserido na transição do modelo de fiscalização posterior para um controle preventivo e orientativo, com foco na diminuição de prejuízos ao erário. A partir dos indícios identificados, a equipe aplica a metodologia ONR (Ofício, Notificação e Representação), permitindo aos gestores/as a correção, revogação ou cancelamento de licitações antes da assinatura dos contratos.
 
Em 2025, o Solaris analisou editais que somavam aproximadamente R$ 3,2 bilhões, resultando na expedição de 749 ofícios orientativos. A ferramenta registra índice de 96,4% de casos solucionados por meio de correção pelos gestores/as ou por apresentação de justificativas aceitas pelo Tribunal.
 
Evolução Institucional e Inovação
A apresentação do projeto no congresso foi conduzida pelos auditores Luciana Canaan (coordenadora de Inteligência de Dados), Fábio Costa (diretor do Suricato) e Carolina Maciel (coordenadora de Fiscalização e Inteligência).
 
O diretor-geral do TCEMG, Gustavo Vidigal, tratou da mudança de atuação do Tribunal, do controle de conformidade posterior para uma atuação focada no planejamento, na avaliação de políticas públicas e na efetividade dos gastos públicos. Vidigal também integrou o painel "Administração Pública em Debate", abordando planejamento público, desigualdade social e a função das empresas estatais.
 
Em sua exposição, o diretor apresentou dados sobre a desigualdade social no Brasil — em que o alcance da renda média por famílias de baixa renda pode demandar de sete a nove gerações —, diferenciando crescimento quantitativo de desenvolvimento social. Defendeu a necessidade de planejamento macroeconômico e macrossocial na administração pública e nos órgãos de controle.
 
Tratou também da atuação de empresas estatais como Embrapa, Emater-MG, Cemig, Petrobras e BNDES, destacando seu papel no fomento econômico e social.
 
“Finalizei trazendo algo que considero fundamental: a evolução qualitativa e o crescente protagonismo dos Tribunais de Contas nos últimos anos, migrando de uma atuação restrita para um papel estratégico na avaliação de políticas públicas e no planejamento governamental”, concluiu Vidigal.
 
Robô Solaris ficou em 1° lugar na 9° edição do Conacon - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
Podcast "Mulheres no Controle"
Durante a realização do 9º Conacon, o podcast Mulheres no Controle marcou presença com uma estrutura de estúdio própria montada no evento. Idealizado e conduzido pelas auditoras de controle externo Cinthia Thomazi e Simony Jinque, o projeto vai além de um canal informativo: consolida-se como uma plataforma de valorização da mulher no serviço público, na fiscalização e no debate sobre transparência, ética, políticas públicas e equidade.
 
A cada episódio, o programa recebe convidadas com trajetórias inspiradoras para compartilhar suas visões, desafios e experiências nos bastidores do controle e da administração pública. Entre as participantes desta edição, a diretora da Secretaria do Pleno, Flávia Ávila, relatou sua trajetória até o controle externo, sua história de vida e seu trabalho focado no combate ao assédio moral nos Tribunais de Contas.
 
Trabalho acadêmico
O assessor da Diretoria-Geral, Anderson Sampaio, publicou o artigo “Provimento derivado e desvio de função na Administração Pública: fundamentos constitucionais e aplicação às carreiras de Estado”, no qual explica por que transferir um servidor público de função sem concurso é ilegal e traz prejuízos graves para o país. O autor analisa a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (STF) para demonstrar que exercer atribuições de um cargo diferente do original não se limita a uma questão de direitos trabalhistas ou salariais, mas constitui um vício formal capaz de anular decisões administrativas importantes.
 
A situação torna-se ainda mais crítica em carreiras estratégicas, como as de fiscalização tributária ou auditoria de contas públicas. Nesses cargos, caso o profissional atue em desvio de função, os atos fiscalizatórios e as sanções aplicadas por ele podem perder a validade na Justiça. Em suma, o texto defende que o respeito ao concurso público é indispensável para garantir a segurança jurídica dos serviços prestados à população e a própria integridade do Estado.
 
A revista está disponível para leitura virtual no link