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Políticas integradas podem reduzir desigualdades na primeira infância

16/10/2026

Especialistas defendem que, para garantir direitos nos primeiros anos de vida, o poder público precisa olhar além das políticas tradicionalmente associadas à infância.- Imagem gerada com suporte de IA

Fechando a série sobre o relatório da auditoria operacional “Primeira Infância: Programas de Visitação Domiciliar Criança Feliz e Estratégia Saúde da Família (Estado)" do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), é hora de focar em algumas lições que ficam para o poder público.

O fato é que Minas Gerais possui mais de 1,6 milhão de crianças de 0 a 6 anos. Conforme o CadÚnico (Ago/2026), 970,4 mil (60,6%) vivem em famílias de baixa renda, enfrentando desigualdades desde o nascimento. Nacionalmente, são 11,3 milhões de crianças (61,7%) em lares com graves dificuldades socioeconômicas. E, para garantir direitos nos primeiros anos de vida, o poder público precisa olhar além das políticas tradicionalmente associadas à infância.

"Por muito tempo, prevaleceu a noção de que os cuidados eram atribuições exclusivas de assistência social, saúde e educação", observa Graciele Almeida, coordenadora do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Justiça de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (CAODCA) do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG). Primeira infância também passa por renda familiar, moradia, água, saneamento, segurança, meio ambiente e tempo dos responsáveis.

O desafio é transformar esse princípio em ações, orçamento e resultados mensuráveis. "A falta de planejamento orçamentário, desarticulação e fragmentação das políticas, além da desconsideração da criança como prioridade, comprometem o acesso a direitos fundamentais", analisa Graciele.

Conforme a desembargadora Alice de Souza Birchal, do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), é necessário definir metas, identificar responsáveis, garantir recursos e verificar resultados.

"É preciso que os diferentes atores do Sistema de Garantia de Direitos atuem de forma articulada, com objetivos comuns, compartilhamento de informações, definição de fluxos e acompanhamento de resultados", defende Alice. "Trata-se de reconhecer que garantir direitos exige atuação coordenada e contínua, capaz de colocar a criança no centro das decisões e das políticas públicas", explica.

Políticas interligadas

O desenvolvimento infantil não acontece isoladamente. A saúde da gestante, pré-natal adequado e prevenção da violência estão diretamente relacionados à criança. Em 2024, foram 2,2 mil notificações de violência contra crianças de 0 a 4 anos (dados do Portal Primeira Infância em Dados).

"Uma resposta pública adequada precisa articular saúde, assistência social, segurança, educação, sistema de Justiça e rede de proteção. O atendimento fragmentado, em que cada órgão observa apenas uma parte do problema, aumenta o risco de a família circular entre serviços sem receber uma resposta coordenada, satisfatória, eficiente", pontua o conselheiro-presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo.

Vagas em creche, mobilidade urbana, acesso à água e saneamento são exemplos de fatores que interferem na vida das crianças.

"Nós precisamos combater desigualdades sociais, falta de saneamento e moradia, violência, e garantir desenvolvimento infantil pela mobilização de toda a sociedade. Apenas um esforço intersetorial é capaz de proteger os direitos de bebês e crianças pequenas", afirma Desirée Ruas, da Rede Primeira Infância – Minas Gerais (Repi-MG). Ela destaca ainda a ausência de escuta das crianças no planejamento: "A pergunta o que pensam as crianças sobre o funcionamento das cidades? deve ser feita mais vezes por gestores", enfatiza.

Planejamento, orçamento e articulação

A integralidade depende de cooperação entre áreas que frequentemente funcionam isoladas. Essa prioridade também precisa aparecer no orçamento. "Lugar de criança é no orçamento!", reforça Desirée.

Nesse sentido, o MPMG reitera que “a construção coletiva e intersetorial de Planos Municipais pela Primeira Infância (PMPIs) adequados à realidade de cada território é condição essencial para superar esses obstáculos", afirma.

O projeto MaPI – Minas pela Primeira Infância é um exemplo de suporte para que municípios planejem políticas públicas de forma intersetorial.

Durval Ângelo reforça, ainda, que a atuação do controle externo pode examinar se programas foram planejados, possuem recursos, alcançam o público prioritário e produzem resultados.

"A fiscalização não precisa ficar presa à análise meramente formal da despesa. Também pode examinar se os programas foram planejados, se possuem recursos, se alcançam o público prioritário e se produzem resultados. Hoje, atuamos não apenas depois da ocorrência do problema, mas também induzindo melhores práticas e políticas públicas", acrescenta. "A utilização dos dados deve servir à identificação de desigualdades e à tomada de decisões. É preciso saber onde estão as crianças sem acesso a serviços, quais territórios concentram os maiores riscos e se o orçamento público está respondendo a essas necessidades", pontua.

O TCEMG também mantém um portal dedicado à primeira infância (Portal 1, 2, 3 e já), com materiais sobre desenvolvimento infantil, educação, saúde, desigualdades, alimentação, mudanças climáticas, telas e mídias digitais, Justiça e atuação do controle externo.


De cima para baixo, da esquerda para a direita: Desirée Ruas, da Repi-MG; a promotora de Justiça Graciele Almeida; a desembargadora Alice Birchal; e o presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo


Em rede

Conheça algumas entre várias outras iniciativas nacionais e globais também focadas na primeira infância:

• Ação para a Primeira Infância (Act for Early Years); 

• Agenda 227; 

• Diálogo Interamericano – Agenda Regional para o Desenvolvimento Integral da Primeira Infância (Inter-American Dialogue – Regional Agenda for Early Childhood Development); 

• Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV); 

• Iniciativa Harvard-Brasil sobre Desenvolvimento na Primeira Infância; 

• Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI);

• Organização Mundial para Educação Pré-Escolar (Omep);

• Parceria Global para a Educação (GPE); 

• Rede de Ação para o Desenvolvimento da Primeira Infância (ECDAN); 

• Rede Nacional da Primeira Infância (RNPI);

• Urban95 Brasil.